Não me falem, nem me contem histórias
De intemporais glórias,
De eternas memórias…
Não me mintam na cara,
Com a mentira que o mortal não repara,
Pois que amo o que é imperfeito,
O que se diz sem respeito,
Adoro que, ao voltar minhas costas, falem mal,
Que façam chumbo da minha pedra filosofal,
Ou que pereçam a tentar, sem conseguir,
Quando me vejam, fiquem cor de cal,
Sem saber para onde virar, nem o que há de vir,
Pois que amo o que não existe,
O que a natureza não cria e ao tempo não resiste,
E fico a olhar o inexistente, o perene, o horizonte,
E o que a sombra esconde, a tal fonte,
Da vida eterna, que é a poesia,
A arte, o sem nome, a magia,
E então canto, grito, alto, na serra,
Para as árvores ouvirem, o que não se nega,
O que o mocho canta, e o morcego berra,
Em tons mudos, que apenas eu ouço,
Já que todas as noites, saio do calabouço,
Que fala, cala, e nele aprendo,
O que é, o que vai sendo,
E nesta estreita senda, feita de mil caminhos,
Em que caminhamos juntos, sozinhos.