quarta-feira, 3 de junho de 2026

Entre espaços

 Acordo, a corda à volta dos meus pés, pendurado,

Vejo impressões digitais, em todo o lado,

Em todas as paredes, e escrevo, escrevo, com tinta indelével,

E sinto-me depleto, morto, 

Enquanto bebo… bebo… bebo deste porto,

Sinto uma sensação inefável,


Bebedeira e imaginação

Ilusão e cegueira, 

Perdão…

Estranha sensação,

Estranha esta beira,

Deste penhasco de loucura,


Que dá p’ra um infinito,

Quem dá nada, nada tem, 


Quem tudo quer nada tem,

E é levado pela noite no grito,


Descobre-se a chapada que acorda qualquer um,

Segue-se um segundo, um terceiro e um quarto segundo,

Segue-se ante meus pés um mundo,

Pisá-lo, é , nunca, para qualquer um.


Vejo e revejo tudo em mim ante imagens

Belas paisagens, estranhas aragens,

Em todas elas no futuro, que está gravado,

No passado…


Destino-me a nada a não ser a areia do passar do tempo, o mais que faço leva-me o destino...

Desta vida carnal um simples, mais do que isso, simplíssimo peregrino,


Nada do que faço esconde de mim, nem dos outros a beleza que vejo, em contemplar,

Ah, agora tenho que pensar, um pouco, pelo menos, para comigo mesmo negociar,


O dia é de neve, que cai como adagas, e toca o sino,




Os fluxos do fumo refletem-se a si mesmos, nos quais eu vejo tudo,


Em espectros fantasmagóricos que bruxeleiam, nos quais o futuro me fala em vozes de mudo,


Olho-me ao espelho, não me reconheço, despeço-me, vou brincar com facas,

Algo que magoe, a mim, aos outros, facas, matracas, desde que alguém esteja a tocar umas maracas…


Aí tudo ganha um grande efeito cómico,

Aí até um acto terrorista pode ser icónico,

A ironia, o espectáculo desta vida, inacreditável

E que se contassem, ninguém acreditava, ninguém saberia,


A magia está aí, a magia,

Oh essa, essa, seus Deuses, seus entes, suas forças…

E Diabo, lá no fundo do inferno, sem saber por quem te tomar…